Coisas de Artista II


O passeio sem volta

Ele desceu do carro... Pedi que ele voltasse atrás, ele não quis.

Respondeu com a voz firme de sempre, que tinha apenas um alvo – aquela cirurgia.

Não deixava que nada (até o amor incondicional de pai para filhos e de filhos para pai) desviasse a sua meta. Queria um joelho novo, andar, viver com qualidade de vida, sem dor... Queria estar bem demais para andar na garupa de uma Harley Davisson, com alguém em quem confiava demais.

Queria fazer a caminhada da juventude, dos tempos passados, queria uma perna nova, para acompanhar a cabeça, que não cabia o cérebro, de tanta lucidez.

Nos últimos tempos... Aprendi a conviver com meu pai... No carro, escutávamos Cazuza, discutíamos o bom do poeta. Gostávamos de MC Donalds, tortinhas de maça, empadinhas de camarão do mercado da esquina, de caquis do mercado do centro da cidade, dos bolinhos de bacalhau, de corrida de cadeira de rodas, das idas e vindas, das compras de meias, do passeio ao hipermercado, quando ele então... Olhava maravilhado o progresso que avançou tanto, tanto... Que pena! Não pôde pegá-lo com suas mãos corajosas pelo trabalho.

Eu gostava de ver os momentos mágicos que a vida nos proporcionava, sabia que iriam ser rápidos... Queria tê-lo mais perto, mas a correria da vida impedia-me de poder saber como foi o seu dia e beijá-lo na testa.

É meu amigo... É meu conselheiro fiel... É meu exemplo de vida, meu patrão e mestre. Era meu porto seguro, onde podia ancorar em segurança.

É meu pai... Meu véio! Se pudéssemos prever o futuro... Manteria-o comigo, colocaria-o novamente no carro, daria meia volta e voltava para casa. De quinta, chegaria o domingo, então... não te daria só um beijo na testa, e sim um montão. Não conversaria só alguns minutos, poderia ficar dias... só ouvindo sua voz.

Antes que vá... quero que saiba, fico em paz... Quero-te em paz. Para mim, você sentou na garupa de uma Harley Davisson. Fez ou vai ainda, fazer seu passeio eterno, mas fico com a certeza de que lá... Na estrada de ouro, do nosso Senhor Jesus, em algum lugar, ficará me esperando e junto contigo, ele que te segura no ombro. Fique com Deus, meu amado pai.

Claudia Leão 16/09/2005.

 



Escrito por Claudia Leão às 23h44
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